6 de março de 2014

"Vidas ao Vento"

Kaze Tachinu, Hayao Miyazaki



Quando um diretor que você acompanha e gosta declara sua aposentadoria, um turbilhão de sentimentos surgem: desde o desamparo até a gratidão. A expectativa e curiosidade para assistir ao seu último filme é tamanha que se equipara à felicidade dos cinemas de São Paulo, embora apenas dois, decidirem reservar algumas sessões para o filme.
Não me estenderei sobre a falta de divulgação do filme; a desatenção do Cinemark, pois não havia sequer um cartaz do filme; e as condições que encontrei a sala. O ponto não é esse e, sim, a conclusiva obra do Miyazaki.
Embora o protagonista, Jiro Horikoshi, seja alguém que existiu e o filme seja, portanto, uma biografia, muito aparenta ser autobiográfico do diretor. Para começar com o primeiro obstáculo que Jiro enfrenta ainda em sua infância: a miopia. Por usar óculos, ele é automaticamente proibido de pilotar aviões. Frustrado, em seus sonhos, ele encontra com Mr. Caproni, designer de aviões italiano, para quem pergunta se ele poderia seguir a mesma carreira usando óculos. Caproni diz que nunca pilotou um avião e que isso não seria impedimento. Jiro, então, decide, a partir deste sonho, qual seria sua profissão. Talvez aí se vê a primeira verossimilhança com a vida de Miyazaki, o primeiro impulso, o incentivo.
A vida de Jiro é retratada em meios dos acontecimentos que aconteceram no Japão: o terremoto de 1923 e a IIGM, todos ilustrados num belíssimo cenário característico das animações do diretor. Aliás, não dá pra criticar a trilha sonora e a fotografia do filme, ambos singelos que caem como uma luva e não decepcionam.
O filme inteiro discute a paixão por aviões e, ao mesmo tempo, a defende. Jiro é apaixonado por aviões, mas não pelo propósito que eles são construídos. A demanda é projetar aviões para usar na guerra e é por isso que ele os projeta, não por concordar ou gostar. Em uma conversa com seu amigo, Jiro reflete sobre seu trabalho, pois as peças dos aviões são caríssimas e alimentariam grande parte das crianças do Japão. Ele se questiona o porquê o país que enfrenta grande índice de pobreza e ainda se recupera do terremoto financia a criação de armas mortíferas. Talvez seja isso que Miyazaki pense de seu trabalho e a fundação do Studio Ghibli.
Este filme se distingue dos restantes do histórico do Miyazaki devido à ausência de fantasia. Com exceção aos sonhos de Jiro, o filme é extremamente realista. Confesso que senti falta de um gato virando ônibus, de um castelo animado ou de um peixe se transformando numa criança. Contudo, ainda é possível identificar sua marca pelas já mencionadas fotografias. Quem assistir vai entender.
O problema do filme, na minha opinião, é a duração. Em pouco mais de duas horas, o filme retrata pouca ação e as personagens, fora o protagonista, não são aprofundadas. Na minha sessão de cinema, demorou muito tempo para começaram a entender e rir do personagem mais caricato do filme: Kurokawa, chefe de Jiro com um penteado peculiar. Jiro é uma personagem pouco expressiva e, embora de fácil identificação com o espectador, de difícil empolgação.
O filme permeia a história do Japão de maneira espetacular e Jiro não só esteve presente como foi diretamente afetado, seja em sua viagem para a Alemanha devido à aliança entre os dois países na IIGM, seja em sua vida amorosa com a epidemia de tuberculose que ocorreu neste período. Então, além do tema da perseverança do sonho, há um cenário histórico totalmente presente e fundamental para a história.
Com diálogos fortíssimos e um tanto quanto ‘cru’, vejo o filme como um desabafo do diretor. Ainda existem pessoas que não levam a animação a sério por condenarem o gênero somente à criança e deduzindo, erroneamente, que não há grandes filosofias a se fazer. Miyazaki abraçou o gênero e hoje seu filme “A Viagem de Chihiro” é o único filme que não fala inglês a conseguir um Oscar por melhor animação.
Acredito que ele sofria com a mesma responsabilidade que Jiro tem toda vez que um projeto seu era testado pela primeira vez. O primeiro voo e o medo do fracasso. “Vidas ao Vento” é o último voo do Miyazaki e embora as inúmeras ressalvas que eu tive, foi um belíssimo voo.
Termino com o lindíssimo e muito citado quote do filme: “Le vent se lève! . . . il faut tenter de vivre!”, Paul Valéry. (Tradução livre: O vento se ergue, é preciso tentar viver.)

That's all xx

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